Apadrinhamento civil – como tudo aconteceu

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Peço desculpa por ter estado tanto tempo sem escrever. Imagino que há pessoas que se interessam pela temática do apadrinhamento civil e por isso considero importante publicar a nossa jornada, protegendo sempre a identidade dos envolvidos, para que outros se inspirem para as suas próprias jornadas.

Ora bem, como vos demos conta, no ano passado chegámos a iniciar uma relação com uma jovem, com vista a apadrinhá-la civilmente. Era uma rapariga muito inteligente, boa aluna e educada. Tinha os seus desafios, também, em particular, era uma miúda que quando se sentia triste, fugia. Por exemplo, em vez de ir para a escola, se estivesse deprimida, simplesmente ia enfiar-se num sítio qualquer a chorar. Não sabemos se teríamos conseguido resolver ou pelo menos melhorar o seu bem estar. Passado pouco tempo do nosso convívio, a jovem disse-nos que não queria o apadrinhamento e que existia alguém da sua família biológica que afinal ia ficar com ela. Ficámos amigos e de vez em quando ainda saímos juntos ou trocamos mensagens. Foi muito triste para nós, porque vemos com apreensão o caminho que ela escolheu, mas um apadrinhamento civil não pode ser forçado, tem de haver vontade de todos os envolvidos.

Bom, decorridos alguns meses, conhecemos um menino que vive numa instituição. Tinha 10 anos (agora já tem 11) e temos convivido juntos desde então. Não posso deixar de vos dizer como tem sido uma experiência maravilhosa! Divertimo-nos tanto juntos…

Quem nos apresentou foi o projeto amigos pr’a vida.

Começámos por sair. Fomos ao cinema. Depois começámos a passear. Depois passámos fins de semana. Depois férias. Com ele fazemos os tpc (ele não gosta nada!).

Num futuro post, hei-de falar-vos das primeiras vezes. Porque com estas crianças (e mesmo com os jovens), há tantas primeiras vezes. A primeira vez que comeu cerejas ou pêssegos. A primeira vez que teve um quarto só para si. A primeira vez que foi ao Algarve. A primeira vez que viu neve (isso foi há uma semana). A primeira vez que aprendeu a andar de bicicleta. A primeira vez que apertou os sapatos sozinho. A primeira vez que deu umas braçadas autónomas numa piscina. A primeira vez que foi aos escorregas aquáticos de um parque de diversões.

Também vos hei-de falar de como é bom ver uma criança a ficar mais rosadinha, ainda mais risonha (este menino é sempre muito bem disposto), de como rapidamente se habitua a que lhe contem uma história antes de dormir, aos abraços, colinho, aos gatos da casa…

Temos as nossas dificuldades. É difícil convencê-lo a comer comidas que nunca provou, não tendo o palato habituado a muita variedade. E os estudos… ui! Temos sempre uma pega antes de ir tratar do assunto. E os amúos, também acontecem. Às vezes achamos que uma coisa que para nós é espetacular, também havia de ser para ele. Mas não é. Não está habituado, não gosta. Há que gerir as nossas próprias expectativas: idealizámos uma determinada situação, em que a criança iria ficar fascinada e em vez disso é um desastre. Eu diria que é melhor descontrair e ir vivendo o quotidiano.

A nossa situação jurídica ainda não está definida. Já fomos a tribunal, mas ainda não está resolvido. Nem sei se o tribunal realmente decretará o apadrinhamento civil. Não darei detalhes, pois dessa maneira seria possível identificar os intervenientes e consideramos importante manter a reserva nesta matéria, como sabem.

Quando houver desenvolvimentos, aqui vos darei conta.

O que vos quero dizer é que nesta jornada há muitas reviravoltas. E que não podemos estar num caminho destes com expectativas disto ou daquilo, porque aí surgirão frustrações. Acima de tudo, não é algo para se fazer por “pena”. Tem de haver paixão pela criança ou jovem, que se desenvolva em amor verdadeiro. Porque vão haver momentos difíceis, sempre. Sem afeto verdadeiro, não vejo que possa haver sucesso. E com franqueza vos digo a minha opinião: não se gera afeto com qualquer um. Acredito que não sentimos empatia por todos os seres da mesma maneira. E para um apadrinhamento civil resultar, julgo que a empatia, a identificação com o outro, são essenciais.

Depois da jornada que fizemos até aqui, continuo a achar que é necessário um tempo de conhecimento mútuo antes de se avançar. Para isso, o voluntariado é essencial. Uma associação como a Amigos prá vida é uma excelente ajuda também, para nos apoiar com a sua experiência.

 

https://apadrinhamentocivil.blogs.sapo.pt/como-tudo-aconteceu-12349